NOTA: Por favor, insira "guardadas as devidas proporções" onde achar necessário. Não se esqueça disso durante a leitura.
minhas aquisições recentes mais importantes para o texto que está lendo são o "Infinite Jest", de David Foster Wallace, e o "Do que eu falo quando eu falo de corrida", de Haruki Murakami, em que, espero que tenha ficado claro, inspirei o título do post.
estou trabalhando no momento com o Livro Infinite Jest, o que vem me causando um certo número de desconfortos, ainda que estes nem de longe superem o Prazer da Leitura do texto de Wallace, descrito por alguns como o "escritor mais Divertido de sua geração". ainda que nos traga trechos profundamente depressivos, o Autor também nos trás momentos leves, bonitos; o problema maior é que o Livro é um complicado calhamaço de 1079 páginas, em um inglês que, dependendo do trecho chega a ser muito técnico, específico, "incorreto" ou cheio de gírias, e fala sobre um futuro incerto num cenário político crítico, envolvendo áreas tão distantes quanto física, matemática, filosofia, letras, cinema, psicologia, política, economia, entre outras - sendo que me falta conhecimento de várias delas. resumidamente, é um trabalho e tanto.
outra dificuldade é que a Obra, lançada em 1996, ainda não foi traduzida, e portanto, mal foi lida no Brasil, ainda que seja altamente loureada pelos críticos de língua inglesa, e seja realmente fantástica, do meu ponto de vista chão. em outras palavras: ainda que eu faça letras, a grande maioria de meus professores não leu o Livro, ou sequer ouviu falar de seu Autor. na verdade, estou quase certo de que apenas uma de minhas professoras conhece o nome David Foster Wallace. talvez duas. não quero me gabar, te deixando com a impressão de que sou lá um grande conhecedor da literatura contemporânea; não sou. um amigo me indicou o livro, eu gostei, e é só. quero, pelo contrário, manifestar algumas dificuldades.
como estudante, é difícil se conseguir algum tipo de publicação decente sem um orientador - o que, no caso do Infinite Jest, provavelmente me obrigará a ter como orientador alguém que nunca leu a Obra. não sei se algum dos professores capazes de ler em inglês teria interesse, ou fôlego.
vou mais além: vou imaginar que em algum lugar no Brasil um estudante se interesse pela obra no mínimo singular de Haruki Murakami. além de este ser um nome menos conceituado (justamente? difícil saber.), é definitivamente, como Wallace, contemporâneo demais para que a maioria dos professores aceite tomar uma decisão a respeito. para não mencionar que Murakami é, e escreve em, japonês. o que leva à pergunta: como julgar Haruki Murakami?
há críticos e críticos, é claro; há Antônio Cândido e Sílvio Romero, e peço até desculpas por comparar tão grosseiramente, mas o ponto é que, como eu disse antes, "como julgar" não é exatamente uma pergunta, e se for, é tão vaga quanto suas possíveis respostas.
inúmeros fatores são levados em consideração ao se analisar o conteúdo de uma obra. uma nova obra pode até mesmo ter um valor inato que até então se desconhecia, e o que tem valor numa obra pode se mostrar insignificante na outra, para o prejuízo de nenhuma. dizer que Machado de Assis é genial é fácil, é seguro. saber quais são seus maiores estudiosos é simples. achar as obras mais confiáveis escritas sobre eles é questão de fazer algumas perguntas. a opinião sobre um Murakami e um Wallace, contudo, é mais controversa; o estudante se vê jogado num terreno inóspito, para o qual jamais foi preparado: a crítica de um autor desconhecido. os artigos a respeito são contraditórios e incertos, alguns bons, alguns ruins; críticos amam; odeiam; as cabeças se movimentam como as razões num jogo de tênis. o estudante talvez pare e pense no que conhece como "literatura conteporânea", apenas para perceber que não conhece nada; que há críticos de tudo; que há certezas. que a contemporaneidade que havia estudado é só o cânone mais próximo.
claro, há sempre "guidelines", instruções encapsuladas em pílula de enjôo de Grandes Viagens; o estudante precisa Perguntar e Buscar, e ainda assim não será simples. professores relutarão em afirmar, e afirmarão em relutância, ainda que discreta. o hábito de afirmar sem se saber não lhes é comum. se dedicarão a análises e (principalmente) re³-análises. não terão tempo.
não que seja essencialmente mau(sic). apenas não querem perder seu Tempo com aquilo que pode ser uma obra de baixa qualidade escolhida por estudantes ignorantes que não sabem nem mesmo qual a relação existente entre o deus Apolo e o Sol, ou qual o oitavo arcano da constelação de ursa maior. se incentivassem os alunos a analisarem o verdadeiro contemporâneo sabe-se lá que porcarias new-age esses catarrentos poderiam lhes infligir. não me entenda mau(sic), por favor; creio que a maioria não pensa assim, ao menos não-superficialmente. só escrevi porque faz sentido. é compreensível. é como as coisas são. é preciso ser gente grande pra falar que ninguém é alguém, ainda que possa ser Odisseu.
e peço perdão pelas generalizações cometidas.
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