Num suspiro de resistência ele ainda pensou que era impossível não
reconhecer um garoto com braços tão maiores que a cabeça e o peito.
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João foi um rapaz extremamente forte. Quando decidia fazer algo, era difícil segurar. Por isso os policiais precisaram atirar nele - a luta havia começado a ficar violenta; um policial já estava quebrado no chão, e o outro, ele estrangulava contra uma parede de argamassa, quando o terceiro atirou, e a bala causou um dano fatal ao pulmão de João que em pouco coloria o chão ao redor. Um policial pensou ver uma espécie de evaporação que de início atribuiu às drogas, mas depois, percebendo o quanto isso era estranho - talvez ridículo? - ele imaginou que o golpe na cabeça devia ter sido forte demais.
As drogas que João tomava ele podia conseguir na escola onde estudava, com alguns garotos que todos sabiam quem eram, mas tinha uma espécie de inibição; só quando teve contato com os garotos de outra escola é que começou a comprar. Sua namorada, na época, fumava maconha, e se aquilo, que era proibido, não viciava nem trazia nada de grave, talvez não fosse mal experimentar também algo mais forte, impressionar... o namoro havia começado, inclusive, numa noite em que ela estava fumando escondida num canto da escola e ele a pegou por acaso, e disse que não ia contar nada e não contou, e acabaram, por essa e outras coisas, se juntando - nenhum deles era especialmente bonito, inteligente, nem nada, mas se gostavam. Ela já tinha notado ele antes porque ele era muito forte, e era um dos poucos que já trabalhavam e, então, tinha mais dinheiro que a maioria, o que até sem querer mostrava. O trabalho para o tio realmente não era nada mau - trazia o dinheiro e a força de João, e foi através dele que ele descobriu as pessoas de quem comprar.
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Maximiliano, seu tio, que foi reconhecer o corpo porque os pais do João não tinham condições, era dono de uma livraria, e foi o primeiro a perceber o problema de João com as drogas. Não era de falar muito, e costumava passar muito tempo lendo, mas gostava de de vez em quando sair com o sobrinho, perguntar sobre a escola, e conversar com ele sobre como andavam as coisas. Ele reparou na mudança de João, que negou tudo desde sempre. Havia falado também com os pais dele, que não acreditaram - e no momento do acreditar-pelo-choque ainda culparam a garota, que pro Maximiliano não tinha sido mais que má influencia passiva. Ele já tinha entendido João o suficiente para saber que se fosse fazer uma coisa daquelas, seria por iniciativa própria. Quase se arrependeu de ter dado a ele aquele emprego.
O João saía com a bicicleta todos os dias pra diversos cantos da cidade e entregava livros pra todo tipo de pessoa (inclusive, ele imaginava... seria possível? sim, provavelmente - o João deve ter começado a comprar dos garotos naquela escola do bairro oeste). Muitas vezes, porque o tio não queria que ele saísse pra muito longe, ajudava a fazer inventário, principalmente carregando livros que eram colocados um a um em seus braços pra ver se algum lhe despertava o interesse. Seu tio tinha até tentado dar alguns livros que achava que um garoto como aquele deveria gostar, mas não só João nem começava os livros, como para o Maximiliano era difícil imaginar do ponto de vista de João o que seria interessante. Deu a ele o Dorian Gray, primeiro, mas percebeu que tinha escolhido muito mal, e deu depois um volume com alguns livros de Álvares de Azevedo; no outro ano, viu que ainda assim era exagero e deu o On the road. A cada vez que ia à casa de João visitar a irmã, percebia que ninguém nunca tinha mexido nos livros - só pra tirar a poeira da estante.
Antes de ter a atenção voltada para o uso de drogas do garoto, o que despertava a curiosidade do Maximiliano é que a cada dia os braços do João, mesmo ele não fazendo academia nem nada, pareciam ficar mais fortes, e parecia ser sempre que ele levava livros mais pesados. O dia em que ele levou pra um comprador um Ulysses, um Infinite Jest, um Livro do Desassossego e um Em busca do tempo perdido, pareceu já voltar da entrega com os braços mais grossos (tinha acontecido aquilo quando ele entregou a encomenda semestral de best-sellers para várias casas da região? não se lembrava). Mas o estranho, - que só ele parecia notar - era que o resto do corpo de seu sobrinho não parecia evoluir proporcionalmente, e só os braços eram grandes e musculosos... João carregava livros pra lá e pra cá, seus pensamentos se resumindo a assovios aqui e ali; seu tio ficava imaginando formas de fazê-lo ler, mas não dava.
Se lembrava com saudade de como dera livros para João quando ele ainda era menino... livros finos, de capas bonitas - boas edições, mas de bons livros infantis - mas o garoto tinha uma aversão estranha. Parecia levar um choque quando abria um livro, mesmo fosse o livro mais bonito, com os melhores desenhos. Depois de um tempo, parou.
* Nota: Essa escrita meio "de trás pra frente" é só um exercício, e aqui não quer dizer nada. Esse texto, como o anterior, não é uma versão final, embora não possa dizer que não tive nenhum critério na escrita...
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