Há algum tempo fui induzido pelo Infinite Jest(2) a alguns pensamentos a respeito da globalidade e da localidade do surgimento de determinadas obras. Somado a isso, tenho ouvido muito Cordel do fogo encantado, e então, cheguei ao ponto de querer falar a respeito do tema.
O Jest é recheado de siglas e "modos" simplificados de se escrever. W/r/t(3), w/o(4) e até mesmo @ é usado no lugar do "at" em certo(s) momento(s)(5). Foi isso o que me colocou para pensar: o Infinite Jest, provavelmente, não poderia ser escrito por uma pessoa cujo idioma original não fosse o Inglês, ou que não possuísse um conhecimento bem avançado do idioma. Claro, posso estar errado, já que meu conhecimento de idiomas se resume a Português, Inglês, um pouco de Espanhol e quase nada de Francês e Italiano - idiomas com os quais tive mais contatos com textos que contatos imediatos. Pode ser - é provável, até - que haja um idioma com a mesma tendência à "redução" que o Inglês. Um escritor desse idioma poderia escrever uma coisa parecida com essas abreviações, mas não acho que isso invalida a ideia - que afinal, não é nenhum tratado(6), e já é até conhecida, embora sob outra roupagem; a que veste, aqui, é: até que ponto o idioma que alguém fala define sua capacidade de produção?
Na ponta da língua, surgem de vez diversos grandes escritores que falavam mais de um idioma: Machado, Rosa, Bandeira, Joyce, Borges, Pessoa...(7) não estou de modo algum sugerindo que o conhecimento de diversos idiomas seja essencial para a criação de uma boa obra literária; há autores que escreveram grandes obras sem falar outros idiomas(8). Inicialmente, um fato pula à língua: Rosa simplesmente não poderia escrever a maior parte de sua obra sem conhecer o Alemão(9); é também difícil imaginar um mau conhecedor do português ou do falar sertanejo; em outras palavras, para que alguém pudesse escrever o Grande Sertão, essa pessoa teria que ser, no mínimo, grande conhecedora do português, razoável conhecedora do Alemão, extremamente inteligente, e conhecedora do falar e do viver sertanejo, conhecedora de uma considerável quantidade de referências literárias, filosóficas, entre outras, e nascido num ponto específico do tempo, e possivelmente num determinado limite geográfico(10) - Rosa é possivelmente o único com tais características.
O mesmo se aplica à música. O "Cordel do fogo encantado" tem um ritmo muito peculiar, específico; são músicas que um americano talvez simplesmente não pudesse criar, ainda que quisesse. Talvez um africano, já que muitos dos nossos sons vêm de lá; mas mesmo assim, certamente não poderia ser igual.
Isso tudo é certamente já sabido e já pensado sobre por algumas pessoas de calibre pelo globo, mas ainda assim, eu gostaria de acrescentar uma conclusão: até que ponto o conhecimento de idiomas pode ampliar os horizontes de um escritor, e talvez até de qualquer outra pessoa? Pensar a respeito das estruturas, formas, e possibilidades significativas de outro idioma não poderia enriquecer significativamente a produção e a "atividade cerebral"? É, arguably, o mesmo caso do contato com diferentes gêneros; pode ser altamente enriquecedor para um prosador o contato com a poesia, por exemplo, ou para um escritor de ficção a leitura de textos ensaísticos... verdadeiros "estudos formais"(11).
There are more things...
1. Falo da banda "Cordel do fogo encantado".
2. Coloquei as notas apenas para deixar isso óbvio.
3. "With regards to".
4. "Without".
5. Ainda não terminei de ler o livro, então pode haver mais momentos, embora até agora eu só tenha encontrado um.
6. Não estou tentando falar algo que diga respeito à sociedade ou à história, a não ser indiretamente, e sim, a respeito da linguagem em si, e como sua forma influencia na sua própria evolução pelos diferentes meios. No caso em questão, do Inglês, é possível imaginar(a) que para um idioma que possui tantas contrações na fala, e no qual tantos verbos dentre os principais sofreram mudanças ao longo do tempo se tornando às vezes Muito irregulares, seria natural adotar esse tipo de "redução"(b) na escrita - coisa que certamente já era adotada em mensagens não formais(c) antes mesmo da internet.(d)
(a. É claro que não tenho nenhuma pretensão de afirmar ou academizar algo, isso é só uma imagi-nada.
b. Com "redução" falo de coisas como "w/r/t".
c. Uma exceção¹ são certamente frases como ASAP² que acabaram se tornando comuns até mesmo em mensagens formais ainda antes da utilização da internet.
[1. Exceção no sentido de que é um uso da redução num contexto formal na era pré-internet.
2. É curioso o modo como esse tipo de expressão se tornou aceitável; talvez por sua tremenda utilidade, ou pela velocidade requerida ao "mundo dos negócios", talvez ambos.]
d. Claro, já que, ironicamente, a faculdade de letras não me dá tempo para procurar suas faculdades, estou supondo isso através da impressão geral que o idioma passa e do pouco que sem, não em textos teóricos ou reconhecidos de quem quer que seja. No fim das contas, talvez, esse texto possa ser considerado fictício.)
7. Borges e Pessoa, inclusive, tem uma relação de amor intensa com o Inglês.
8. Percebo agora, curiosamente, que é mais fácil saber quais idiomas um autor fala que saber que ele não fala nenhum.
9. Ou, como um escritor de que gosto muito dizia, talvez até pudesse, mas o livro teria que encontrar uma outra forma de acontecer - e provavelmente teria muitas diferenças.
10. E essas são apenas as limitações que consegue pensar.
11. Me lembro inclusive dos "Estudos de estilo", no que diz respeito aos gêneros, embora isso seja com certeza algo bem mais específico, também exemplifica.
* Essa "versão alpha" é porquê ainda pretendo fazer algumas alterações nesse texto, e tavez publicar uma versão aprimorada aqui. Essa versão ficou "ensaística" demais e "verdadeira" demais.
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