segunda-feira, 23 de abril de 2012

Charlie Kaufman, Adaptation, e a posição do autor

     Assisti hoje ao filme "Adaptação", feito por Charlie Kaufman, um daqueles roteiristas que colocam em cheque a noção de que é correto se dizer "Um filme de Spike Jonze" ao início. Usualmente, um diretor bom consegue fazer de qualquer história ruim num filme interessante - Kubrick, por exemplo. Um roteirista do qual a grande maioria dos roteiros resulta num filme bom, independente do diretor que os filme, é uma criatura ainda mais rara. Mas chega de elogios;
     O filme em questão é bem amplo, no sentido de poder ser encarado de diversas formas, permitir diversas interpretações diferentes e poder ser encarado como uma manifestação da opinião do autor a respeito de diversos temas, mas há um tema específico sobre o qual eu queria falar: o questionamento da ideia de que a intenção do autor é irrelevante à compreensão do texto.
     A ideia, em si, já começa trabalhosa: afinal de contas, antes de começar a analisá-la, já é preciso tê-la resolvido. A história do filme, in a nutshell, fala de Charlie Kaufman escrevendo o roteiro do próprio filme que estamos assistindo. Em diversas partes do filme, o Kaufman personagem nos diz certas coisas que o Kaufman escritor desejava ou não para o mesmo filme. Chegamos aí a um ponto crítico; se isso for realmente similar às situações pelas quais Kaufman, o escritor, passou,  vamos enxergá-lo de uma maneira completamente diferente do que enxergaríamos caso contrário, e isso influenciará a nossa análise do personagem. Claro, é muito bonitinho tomar uma decisão apressada de "a intenção/opinião do autor" não importa; mas se esse é um filme a respeito do autor, como ignorar quais suas intenções? Além disso, estaria Kaufman consciente dessa provocação ao modo de pensar a relação autor-personagem? Em que isso influencia? Outra coisa, talvez mais importante: o roteiro escrito pelos Kaufmans seria realmente idêntico? Se sim, o fato de que a situação no qual cada um foi escrito, considerando que vemos apenas a situação de um Kaufman (na verdade, infinitos), nos faz pensar de modo diferente; se o autor tivesse escrito o roteiro de outro modo, se a história do autor nos mostrada fosse outra, nossa compreensão do filme seria completamente diferente.
     Claro, como sempre, é bom começarmos do início: minha opinião de que é impossível saber as verdadeiras intenções do autor, e ela deve, apesar de todos os detalhes, ser ignorada; há outros modos de pensar a situação. Creio que o mais produtivo seja considerar o "autor ideal" que geralmente é considerado nas análises:  o homem completamente ciente daquilo que escreve (lembrando que mesmo essa tradicional escolha define completamente os rumos de uma análise, mas como fazer outra?). Daí, somos obrigados a imaginar que Kaufman está ciente do "problema" que nos traz. A partir disso, podemos fazer uma suposição construtiva: talvez, a ideia de Kaufman seja justamente que imaginássemos a influência de possíveis posições do autor em relação a criação do texto. Ao transformar-se em personagem, ele se torna ficção, e nos obriga a refletir sobre isso. É como se, ao fim da Odisseia, descobríssemos que Minerva foi a narradora da história; cada afirmação sobre gregos e troianos teria que ser revista; a própria posição de Minerva e o que fala sobre cada outro deus poderia ser questionado; ela passaria a ser uma autora inserida no mundo da própria narrativa, e esse nosso "conhecimento" sobre o autor mudaria tudo.
     Num filme, claro, temos um elemento estranho, uma espécie de pseudo-narrativa imagética que não tenho background suficiente para nomear em termos técnicos; o máximo de narrativa em primeira pessoa são alguns momentos em que ouvimos os pensamentos do personagem Kaufman; o restante é como se fosse uma narrativa em terceira pessoa; o ponto de vista do autor muitas vezes nos passa despercebido em filmes uma vez que não ouvimos sua voz, mas apenas enxergamos fatos; em Adaptação não; o ponto de vista do autor se mostra como chave para compreender o filme - é até preocupante nos metermos por esse buraco à mente do autor, talvez maior que aquele que leva à mente de Malkovich; podemos começar a nos perguntar: teria, então, cada movimento de câmera, cada perspectiva, um significado? O ponto de vista do autor seria representado pela perspectiva das câmeras, ou a visão do diretor tentaria trazer um novo significado ao texto? Se sim, de que modo? Acho que já ficou claro que esse texto é menos sobre responder questões que sobre propô-las, assim como o filme; nem todas as respostas afinal, são compreensíveis, nem todas podem ser alcançadas; o mesmo vale para as perguntas para as quais muitas vezes temos respostas - numa inversão dolorosa de papéis.
     Vou concluir então, com o que me parece possível dizer: a posição do autor é sim importante, mas raramente pode ser conhecida. Portanto, em geral não faz sentido preocupar-se com ela. Em alguns casos, especialmente quando o texto, ou, no caso, filme, nos pede, pode ser interessante imaginar as implicações de uma possível intenção. Em outros, uma tentativa de imaginar a intenção do autor não passará de mais um trabalho de ficção, que, ainda assim, acrescentará significados ao outro. Não tento fazer uma suposição a respeito do filme aqui porque se meus posts começarem a ter páginas páginas e páginas, acho que muitas pessoas perderiam o interesse. Mas deixo aí as perguntas pra quem se interessar em pensar a respeito.

(este texto pode ser alterado sem prévio aviso)

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