Há não muito tempo atrás, li uma biografia (sofrível, aliás) de um dos escritores que mais me impressiona: J. L. Borges. Apesar das inumeráveis ressalvas que se poderia fazer a ela, não vou me dar ao trabalho. Gostaria apenas de mencionar um episódio interessante para introduzir o assunto.
Borges, na juventude – que já prenunciava o futuro de escritor – chegou a ter seus períodos mais radicais e/ou mais nacionalistas. Seu apreço pela cultura européia, sua chegada na Argentina que despertaria sua paixão pela pátria, tudo isso influenciou seus gostos, como não poderia deixar de ser. Houve um momento, contudo, em que a política Argentina se voltava para a exclusão de tudo o que não era Argentino. A colônia, como sempre, queria se purgar da metrópole, e se tornar algo novo – para isso, não bastava eliminar a influência política ou econômica (não que isso fosse possível), mas também, a influência cultural dos países europeus. Ao menos isso era o que alguns pensavam.
Borges, nessa época (sublinho porque Borges não foi nada estável), já era um apreciador da cultura européia e da cultura argentina. Acabou ficando num meio termo, sendo que, para citar uma completamente inesperada música da banda System of a Down, “We can’t afford to be neutral on a moving train.”. As consequências, causas e detalhes disso não interessam aqui, e caso eu tenha colocado alguma informação errada, não comprem a biografia. Tudo isso foi apenas para chegar a frases que, de acordo com a ela, foram ditas por Borges (nossa, já devo ter falado o nome dele vinte vezes). Ele teria discordado dos dois lados da discussão, dizendo que um deles “Preferia uma má milonga que um bom soneto”, e o outro “Preferia um mau soneto a uma boa milonga.” Não, também não quero falar sobre a importância social dos “gêneros”, ou da definição de gênero, ou se há algum merecimento intrínseco no fato de que o Word reconhece a palavra soneto mas não a palavra milonga. Eu queria comentar a respeito do que parece guiar muitas das análises de textos literários desde sempre, embora hoje em dia seja um erro mais drástico.
Esses pensamentos me surgiram ao ler um texto que um de meus professores, muito apropriadamente chamado Bruno, pediu para que lêssemos (ô palavrinha feia de se ver). O texto, certamente não por coincidência, é do Borges, e nele ele menciona um soneto de Quevedo e um de Banchs, depois do que diz: “Seria absurdo dizer que Banchs é melhor poeta que Quevedo. De mais a mais, o que significam essas comparações?”
Se um soneto é melhor que o outro, não importa aqui; o importante é a influência, digamos, imaterial (não acho que a palavra “psicológica” se encaixaria aqui) do conhecimento a respeito de Quevedo e de Banchs. Resumidamente: se colocássemos um soneto de Quevedo ao lado de um soneto apenas levemente superior de Banchs (considerando um leitor idealmente capaz de compreendê-los), quantas pessoas, seja por que razão, diriam que o soneto de Banchs é melhor? E mais importante: por quê? Quantos deixariam que a importância histórica e a qualidade em geral da obra dos autores influenciassem sua opinião final? E quantos simplesmente temeriam a reação alheia e deixariam de afirmar sua opinião? Imaginemos, então, que um péssimo escritor produzisse apenas uma obra de qualidade. Quanto tempo levaria para que a tratassem com respeito, ou se quer para que o primeiro bom crítico a elogiasse sem ser criticado?
Não estou me inocentando do pecado, apenas apontando um comportamento comum – e talvez até enraizado em boas razões.
Claro, há outros, e piores, sendo que eu gostaria de passar ao longe de um deles: o da teorização radical. Cortazar menciona no “62 – Modelo para armar” que (colocarei em aspas hipotéticas porque não sei se me lembro exatamente) analisar um texto é colocá-lo na velha marmita quadriculada e falsificá-lo. Por favor, não me perguntem se concordo. Mas digamos que há os mais diferentes tipos de marmitas, sendo que cada uma realça o sabor de um alimento específico. Há pessoas, contudo, que pedem que a marmita venha sem a salada, tentando realçar o sabor da carne. Há os vegetarianos, e os mais radicais, vegans, que muitas vezes criam sabores novos para se virarem só com o determinado grupo de alimentos que lhes agrada, sendo que é aqui que eu percebo que deixei a metáfora ir longe demais. De qualquer modo, por mais que alguém possa ser um “history buff”, não posso acreditar que conseguiria ler a análise de “Ulysses” feita por Jakobson e não enxergá-lo como um leitor privilegiado e habilidoso. Pode-se dizer, e talvez com certa razão, que ele deixa de lado elementos importantes, e por isso chamar sua análise de incompleta, embora, claro, isso não leve a lugar nenhum por simplesmente não existir sequer a possibilidade da análise completa.
Acho que não me fiz entender: temos dificuldades em enxergar qualidade, alcance, e possível utilidade das linhas de pensamento com as quais não concordamos - a não ser quando é inevitável.
Ah, agora sim.
P.S.: Que fique bem claro que comentários sobre a minha não-revisão dos textos serão ignorados, a não ser os involuntários.
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