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domingo, 22 de abril de 2012

la luna

    Creio que foi Jorge Luis Borges quem escreveu alguns dos ensaios mais interessantes e prazerosos do século passado justamente porque seus ensaios não se resumiam a tentativas acadêmicas, mas também traziam um quê de literatura - assim como boa parte de sua literatura trazia um quê de ensaio. Em Borges, a criação permeia a crítica, e creio que muitos ensaios só tiveram a ganhar - e muitos contos também, como o famoso Pierre Menard. Digo isso porque esse texto, que não é literatura ou sequer ensaio, pende um pouco para cada extremo, pois vou falar um pouco de literatura e vou "imaginar" possibilidades.
     Acho que não consigo ser mais claro que começando por mencionar um amigo meu, Yambo, que me fez pensar nesse assunto. Ele escreveu um ensaio até bem complicado no qual fala a respeito de como Borges, em seu conto "O Aleph", mencionava o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, e seu "A máquina do mundo". De acordo com ele, não só o Aleph podia ser interpretado como um repensar da "máquina" mas além disso, o nome do personagem que a encontrava era Carlos. a coincidência era realmente tamanha que me fez rir. Pedi desculpas e disse a ele que, primeiro, não tinha muita certeza a respeito do timing; se o conto teria sido escrito depois ou antes do poema. Segundo, o próprio poema de Drummond - o que ele não sabia - era inspirado na divina comédia. Era provável que Borges não estivesse citando Drummond, mas sim, que ambos estivessem citando Dante. Ele insistiu, falando a respeito do nome, e eu mencionei, como já havia lido em algum lugar, que o nome do personagem era Carlos Daneri - seu último nome, portanto, era a soma da primeira sílaba de Dante à última de Alighieri. Isso diminuiu um pouco sua vontade, e ele passou a afirmar que talvez Borges tenha tentado citar aos dois. Não quis discutir por achar que não chegaria a lugar nenhum, e quase fingi concordar; ele acabaou se cansando pela falta de réplica. (nota colocada depois da compleção do texto: mostrei esse texto ao Yambo e ele não se importou por eu publicá-lo - e ainda agradeceu pela minha honestidade!). 
     O comentário dele ficou na minha cabeça, e depois de certo tempo, acabou rendendo certa discussão interna. Me lembrei do verso "Loudly careless drunkly spoke:/'Yo-ho-ho and a bottle of rum!'" (quem se lembrar do nome do autor por favor me ajude, o verso ficou talvez por ser sonoro; talvez, por eu ter me lembrado da citação, me lembrei do resto). Eu consigo imaginar claramente um leitor brasileiro ou português achar estar vendo num autor inglês uma citação de Pessoa; claro, porém, que a maioria dos leitores ingleses não teria essa visão, pois imaginaria imediatamente o texto original de Stevenson, que Pessoa cita.
     Foi a partir desse ponto que minha imaginação - que até agora era somente reflexão sobre textos pré-existentes - realmente se impulsionou, e comecei a navegar no significado dos textos. Imagine, por exemplo, um poeta que crie o seguinte verso em espanhol/inglês (por favor, perdoem minha incapacidade de criar versos bons): "una rosa amarilla; a yellow rose/ art two diff'rent flowers, tho they art none"; esse poeta poderia criar tal verso inspirado pela obra de Borges - porém, os americanos e ingleses não pensariam na fonte original da citação? Um italiano, ao ler o Aleph poderia lhe imaginar alguns significados diferentes que um brasileiro que não conheça a comédia. Seria possível, como Yambo, crer que a recusa de Borges a comentar sobre o Aleph que acabara de ver seria uma re-imaginação e re-significação da recusa do mineiro de Drummond a penetrar na máquina do mundo; se poderia imaginar que Borges afirma que mesmo a recusa é um ato social. Se desconsiderarmos totalmente a possibilidade lógica, as datas, e a intenção do autor, quem poderá negar essas suposições, que encontram tanto respaldo no conteúdo do texto quanto algumas respeitadas? Borges certamente se divertiria com as inúmeras interpretações resultantes. No caso de Pessoa e Stevenson a confusão é ainda mais fácil: são dois autores muito lidos entre os falantes de sua língua, e não tão lidos pelos falantes da outra; Pessoa, que cita, é bem mais talentoso; e se Stevenson for esquecido e ele não? É preciso admitir que um poeta brasileiro que citasse a frase do "rum" muito provavelmente leu Pessoa, mas teria lido Stevenson? Se sim, que possível influência isso poderia ter para o significado de seu texto?
      É com certeza um tema complicado, mas no fim, eu creio que as intenções do autor realmente não devam importar, e talvez nem mesmo as datas; um texto é influenciado por seus antecessores e sucessores, e cada texto diz ele mesmo o que cita, e o que não; autores mentem e morrem; textos sempre falam a verdade - ainda que não aquela que seus escritores queriam que eles dissessem.

terça-feira, 20 de março de 2012

Milongas e Sonets

            Há não muito tempo atrás, li uma biografia (sofrível, aliás) de um dos escritores que mais me impressiona: J. L. Borges. Apesar das inumeráveis ressalvas que se poderia fazer a ela, não vou me dar ao trabalho.  Gostaria apenas de mencionar um episódio interessante para introduzir o assunto.
                Borges, na juventude – que já prenunciava o futuro de escritor – chegou a ter seus períodos mais radicais e/ou mais nacionalistas. Seu apreço pela cultura européia, sua chegada na Argentina que despertaria sua paixão pela pátria, tudo isso influenciou seus gostos, como não poderia deixar de ser. Houve um momento, contudo, em que a política Argentina se voltava para a exclusão de tudo o que não era Argentino. A colônia, como sempre, queria se purgar da metrópole, e se tornar algo novo – para isso, não bastava eliminar a influência política ou econômica (não que isso fosse possível), mas também, a influência cultural dos países europeus. Ao menos isso era o que alguns pensavam.
                Borges, nessa época (sublinho porque Borges não foi nada estável), já era um apreciador da cultura européia e da cultura argentina. Acabou ficando num meio termo, sendo que, para citar uma completamente inesperada música da banda System of a Down, “We can’t afford to be neutral on a moving train.”. As consequências, causas e detalhes disso não interessam aqui, e caso eu tenha colocado alguma informação errada, não comprem a biografia. Tudo isso foi apenas para chegar a frases que, de acordo com a ela, foram ditas por Borges (nossa, já devo ter falado o nome dele vinte vezes). Ele teria discordado dos dois lados da discussão, dizendo que um deles “Preferia uma má milonga que um bom soneto”, e o outro “Preferia um mau soneto a uma boa milonga.” Não, também não quero falar sobre a importância social dos “gêneros”, ou da definição de gênero, ou se há algum merecimento intrínseco no fato de que o Word reconhece a palavra soneto mas não a palavra milonga. Eu queria comentar a respeito do que parece guiar muitas das análises de textos literários desde sempre, embora hoje em dia seja um erro mais drástico.
                Esses pensamentos me surgiram ao ler um texto que um de meus professores, muito apropriadamente chamado Bruno, pediu para que lêssemos (ô palavrinha feia de se ver).  O texto, certamente não por coincidência, é do Borges, e nele ele menciona um soneto de Quevedo e um de Banchs, depois do que diz: “Seria absurdo dizer que Banchs é melhor poeta que Quevedo. De mais a mais, o que significam essas comparações?”
                Se um soneto é melhor que o outro, não importa aqui; o importante é a influência, digamos, imaterial (não acho que a palavra “psicológica” se encaixaria aqui) do conhecimento a respeito de Quevedo e de Banchs. Resumidamente: se colocássemos um soneto de Quevedo ao lado de um soneto apenas levemente superior de Banchs (considerando um leitor idealmente capaz de compreendê-los), quantas pessoas, seja por que razão, diriam que o soneto de Banchs é melhor? E mais importante: por quê? Quantos deixariam que a importância histórica e a qualidade em geral da obra dos autores influenciassem sua opinião final? E quantos simplesmente temeriam a reação alheia e deixariam de afirmar sua opinião? Imaginemos, então, que um péssimo escritor produzisse apenas uma obra de qualidade. Quanto tempo levaria para que a tratassem com respeito, ou se quer para que o primeiro bom crítico a elogiasse sem ser criticado?
                 Não estou me inocentando do pecado, apenas apontando um comportamento comum – e talvez até enraizado em boas razões.
                Claro, há outros, e piores, sendo que eu gostaria de passar ao longe de um deles: o da teorização radical. Cortazar menciona no “62 – Modelo para armar” que (colocarei em aspas hipotéticas porque não sei se me lembro exatamente)  analisar um texto é colocá-lo na velha marmita quadriculada e falsificá-lo. Por favor, não me perguntem se concordo. Mas digamos que há os mais diferentes tipos de marmitas, sendo que cada uma realça o sabor de um alimento específico. Há pessoas, contudo, que pedem que a marmita venha sem a salada, tentando realçar o sabor da carne. Há os vegetarianos, e os mais radicais, vegans, que muitas vezes criam sabores novos para se virarem só com o determinado grupo de alimentos que lhes agrada, sendo que é aqui que eu percebo que deixei a metáfora ir longe demais. De qualquer modo, por mais que alguém possa ser um “history buff”, não posso acreditar que conseguiria ler a análise de “Ulysses” feita por Jakobson e não enxergá-lo como um leitor privilegiado e habilidoso. Pode-se dizer, e talvez com certa razão, que ele deixa de lado elementos importantes, e por isso chamar sua análise de incompleta, embora, claro, isso não leve a lugar nenhum por simplesmente não existir sequer a possibilidade da análise completa.
Acho que não me fiz entender: temos dificuldades em enxergar qualidade, alcance, e possível utilidade das linhas de pensamento com as quais não concordamos - a não ser quando é inevitável.
Ah, agora sim.

P.S.: Que fique bem claro que comentários sobre a minha não-revisão dos textos serão ignorados, a não ser os involuntários.