sexta-feira, 27 de abril de 2012

Peso

      - Sim, é ele.
   Num suspiro de resistência ele ainda pensou que era impossível não reconhecer um garoto com braços tão maiores que a cabeça e o peito.
    
***

     João foi um rapaz extremamente forte. Quando decidia fazer algo, era difícil segurar. Por isso os policiais precisaram atirar nele - a luta havia começado a ficar violenta; um policial já estava quebrado no chão, e o outro, ele estrangulava contra uma parede de argamassa, quando o terceiro atirou, e a bala causou um dano fatal ao pulmão de João que em pouco coloria o chão ao redor. Um policial pensou ver uma espécie de evaporação que de início atribuiu às drogas, mas depois, percebendo o quanto isso era estranho - talvez ridículo? - ele imaginou que o golpe na cabeça devia ter sido forte demais.
     As drogas que João tomava ele podia conseguir na escola onde estudava, com alguns garotos que todos sabiam quem eram, mas tinha uma espécie de inibição; só quando teve contato com os garotos de outra escola é que começou a comprar. Sua namorada, na época, fumava maconha, e se aquilo, que era proibido, não viciava nem trazia nada de grave, talvez não fosse mal experimentar também algo mais forte, impressionar... o namoro havia começado, inclusive, numa noite em que ela estava fumando escondida num canto da escola e ele a pegou por acaso, e disse que não ia contar nada e não contou, e acabaram, por essa e outras coisas, se juntando - nenhum deles era especialmente bonito, inteligente, nem nada, mas se gostavam. Ela já tinha notado ele antes porque ele era muito forte, e era um dos poucos que já trabalhavam e, então, tinha mais dinheiro que a maioria, o que até sem querer mostrava. O trabalho para o tio realmente não era nada mau - trazia o dinheiro e a força de João, e foi através dele que ele descobriu as pessoas de quem comprar.

***

     Maximiliano, seu tio, que foi reconhecer o corpo porque os pais do João não tinham condições, era dono de uma livraria, e foi o primeiro a perceber o problema de João com as drogas. Não era de falar muito, e costumava passar muito tempo lendo, mas gostava de de vez em quando sair com o sobrinho, perguntar sobre a escola, e conversar com ele sobre como andavam as coisas. Ele reparou na mudança de João, que negou tudo desde sempre. Havia falado também com os pais dele, que não acreditaram - e no momento do acreditar-pelo-choque ainda culparam a garota, que pro Maximiliano não tinha sido mais que má influencia passiva. Ele já tinha entendido João o suficiente para saber que se fosse fazer uma coisa daquelas, seria por iniciativa própria. Quase se arrependeu de ter dado a ele aquele emprego.
     O João saía com a bicicleta todos os dias pra diversos cantos da cidade e entregava livros pra todo tipo de pessoa (inclusive, ele imaginava... seria possível? sim, provavelmente - o João deve ter começado a comprar dos garotos naquela escola do bairro oeste). Muitas vezes, porque o tio não queria que ele saísse pra muito longe, ajudava a fazer inventário, principalmente carregando livros que eram colocados um a um em seus braços pra ver se algum lhe despertava o interesse. Seu tio tinha até tentado dar alguns livros que achava que um garoto como aquele deveria gostar, mas não só João nem começava os livros, como para o Maximiliano era difícil imaginar do ponto de vista de João o que seria interessante. Deu a ele o Dorian Gray, primeiro, mas percebeu que tinha escolhido muito mal, e deu depois um volume com alguns livros de Álvares de Azevedo; no outro ano, viu que ainda assim era exagero e deu o On the road. A cada vez que ia à casa de João visitar a irmã, percebia que ninguém nunca tinha mexido nos livros - só pra tirar a poeira da estante.
     Antes de ter a atenção voltada para o uso de drogas do garoto, o que despertava a curiosidade do Maximiliano é que a cada dia os braços do João, mesmo ele não fazendo academia nem nada, pareciam ficar mais fortes, e parecia ser sempre que ele levava livros mais pesados. O dia em que ele levou pra um comprador um Ulysses, um Infinite Jest, um Livro do Desassossego e um Em busca do tempo perdido, pareceu já voltar da entrega com os braços mais grossos (tinha acontecido aquilo quando ele entregou a encomenda semestral de best-sellers para várias casas da região? não se lembrava). Mas o estranho, - que só ele parecia notar - era que o resto do corpo de seu sobrinho não parecia evoluir proporcionalmente, e só os braços eram grandes e musculosos... João carregava livros pra lá e pra cá, seus pensamentos se resumindo a assovios aqui e ali; seu tio ficava imaginando formas de fazê-lo ler, mas não dava.
     Se lembrava com saudade de como dera livros para João quando ele  ainda era menino... livros finos, de capas bonitas - boas edições, mas de bons livros infantis - mas o garoto tinha uma aversão estranha. Parecia levar um choque quando abria um livro, mesmo fosse o livro mais bonito, com os melhores desenhos. Depois de um tempo, parou.



  









* Nota: Essa escrita meio "de trás pra frente" é só um exercício, e aqui não quer dizer nada. Esse texto, como o anterior, não é uma versão final, embora não possa dizer que não tive nenhum critério na escrita...

o Global, o Local, o Cordel(1) and the Jest (versão alpha)*

     Há algum tempo fui induzido pelo Infinite Jest(2) a alguns pensamentos a respeito da globalidade e da localidade do surgimento de determinadas obras. Somado a isso, tenho ouvido muito Cordel do fogo encantado, e então, cheguei ao ponto de querer falar a respeito do tema.
     O Jest é recheado de siglas e "modos" simplificados de se escrever. W/r/t(3), w/o(4) e até mesmo @ é usado no lugar do "at" em certo(s) momento(s)(5). Foi isso o que me colocou para pensar: o Infinite Jest, provavelmente, não poderia ser escrito por uma pessoa cujo idioma original não fosse o Inglês, ou que não possuísse um conhecimento bem avançado do idioma. Claro, posso estar errado, já que meu conhecimento de idiomas se resume a Português, Inglês, um pouco de Espanhol e quase nada de Francês e Italiano - idiomas com os quais tive mais contatos com textos que contatos imediatos. Pode ser - é provável, até - que haja um idioma com a mesma tendência à "redução" que o Inglês. Um escritor desse idioma poderia escrever uma coisa parecida com essas abreviações, mas não acho que isso invalida a ideia - que afinal, não é nenhum tratado(6), e já é até conhecida, embora sob outra roupagem; a que veste, aqui, é: até que ponto o idioma que alguém fala define sua capacidade de produção?
      Na ponta da língua, surgem de vez diversos grandes escritores que falavam mais de um idioma: Machado, Rosa, Bandeira, Joyce, Borges, Pessoa...(7) não estou de modo algum sugerindo que o conhecimento de diversos idiomas seja essencial para a criação de uma boa obra literária; há autores que escreveram grandes obras sem falar outros idiomas(8). Inicialmente, um fato pula à língua: Rosa simplesmente não poderia escrever a maior parte de sua obra sem conhecer o Alemão(9); é também difícil imaginar um mau conhecedor do português ou do falar sertanejo; em outras palavras, para que alguém pudesse escrever o Grande Sertão, essa pessoa teria que ser, no mínimo, grande conhecedora do português, razoável conhecedora do Alemão, extremamente inteligente, e conhecedora do falar e do viver sertanejo, conhecedora de uma considerável quantidade de referências literárias, filosóficas, entre outras, e nascido num ponto específico do tempo, e possivelmente num determinado limite geográfico(10) - Rosa é possivelmente o único com tais características.
     O mesmo se aplica à música. O "Cordel do fogo encantado" tem um ritmo muito peculiar, específico; são músicas que um americano talvez simplesmente não pudesse criar, ainda que quisesse. Talvez um africano, já que muitos dos nossos sons vêm de lá; mas mesmo assim, certamente não poderia ser igual.
     Isso tudo é certamente já sabido e já pensado sobre por algumas pessoas de calibre pelo globo, mas ainda assim, eu gostaria de acrescentar uma conclusão: até que ponto o conhecimento de idiomas pode ampliar os horizontes de um escritor, e talvez até de qualquer outra pessoa? Pensar a respeito das estruturas, formas, e possibilidades significativas de outro idioma não poderia enriquecer significativamente a produção e a "atividade cerebral"? É, arguably, o mesmo caso do contato com diferentes gêneros; pode ser altamente enriquecedor para um prosador o contato com a poesia, por exemplo, ou para um escritor de ficção a leitura de textos ensaísticos... verdadeiros "estudos formais"(11).
     There are more things...



1. Falo da banda "Cordel do fogo encantado".
2. Coloquei as notas apenas para deixar isso óbvio.
3. "With regards to".
4. "Without".
5. Ainda não terminei de ler o livro, então pode haver mais momentos, embora até agora eu só tenha encontrado um.
6. Não estou tentando falar algo que diga respeito à sociedade ou à história, a não ser indiretamente, e sim, a respeito da linguagem em si, e como sua forma influencia na sua própria evolução pelos diferentes meios. No caso em questão, do Inglês, é possível imaginar(a) que para um idioma que possui tantas contrações na fala, e no qual tantos verbos dentre os principais sofreram mudanças ao longo do tempo se tornando às vezes Muito irregulares, seria natural adotar esse tipo de "redução"(b) na escrita - coisa que certamente já era adotada em mensagens não formais(c) antes mesmo da internet.(d)
       (a. É claro que não tenho nenhuma pretensão de afirmar ou academizar algo, isso é só uma imagi-nada.
        b. Com "redução" falo de coisas como "w/r/t".
        c. Uma exceção¹ são certamente frases como ASAP² que acabaram se tornando comuns até mesmo em mensagens formais ainda antes da utilização da internet.
                [1. Exceção no sentido de que é um uso da redução num contexto formal na era pré-internet.
                 2. É curioso o modo como esse tipo de expressão se tornou aceitável; talvez por sua tremenda utilidade, ou pela velocidade requerida ao "mundo dos negócios", talvez ambos.]
        d. Claro, já que, ironicamente, a faculdade de letras não me dá tempo para procurar suas faculdades, estou supondo isso através da impressão geral que o idioma passa e do pouco que sem, não em textos teóricos ou reconhecidos de quem quer que seja. No fim das contas, talvez, esse texto possa ser considerado fictício.)
7. Borges e Pessoa, inclusive, tem uma relação de amor intensa com o Inglês.
8. Percebo agora, curiosamente, que é mais fácil saber quais idiomas um autor fala que saber que ele não fala nenhum.
9. Ou, como um escritor de que gosto muito dizia, talvez até pudesse, mas o livro teria que encontrar uma outra forma de acontecer - e provavelmente teria muitas diferenças.
10. E essas são apenas as limitações que consegue pensar.
11. Me lembro inclusive dos "Estudos de estilo", no que diz respeito aos gêneros, embora isso seja com certeza algo bem mais específico, também exemplifica.

* Essa "versão alpha" é porquê ainda pretendo fazer algumas alterações nesse texto, e tavez publicar uma versão aprimorada aqui. Essa versão ficou "ensaística" demais e "verdadeira" demais.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Confissão

     Desejo, desde já, deixar claro que não tenho o objetivo de falar mal de ninguém, e portanto, não o farei; não mencionarei, em consequência, o nome da pessoa responsável pela existência desta nota. Simplesmente divulgarei os fatos e deixarei que cada um tire suas conclusões.
     Essa pessoa, não muito tempo atrás, me procurou atrás de algumas dicas de escrita. Admito que a fábula que ela decidiu criar já tinha pequena parte de sua história elaborada, e não era completamente má; era sobre um homem obcecado pela aprovação daqueles a seu redor. Sua obsessão chegava a tal ponto que ele entrava em discussões arraigadas com amigos, família, qualquer um que não reconhecesse seu suposto gênio. Esse personagem, chamado Pablo P. - nome vazio, para garantir desde o início a baixa qualidade do trabalho (seu autor nem sequer houvera dado significado ao "P"!) - deveria, de acordo com as poucas ideias de seu criador, passar, ao longo do conto no qual se inseria, por algumas situações que fossem capazes de exemplificar tal comportamento, antes que seu "destino" fosse revelado. O autor, apesar de seu profundo conhecimento de "estrutura narrativa" (esse comentário de Donald, corroborado ainda por Daneri, chega a ser cômico) veio até mim em busca de ajuda.
     "Estou completamente travado", foram as suas eloquentes palavras. Disse-me que não conseguia escrever uma continuação para seu já pífio conto, tendo tentado por diversos dias. Eu lhe disse, desde o início, que tal conto não tinha lá muito interesse; lhe faltava densidade, reconhecimento de diversas das influências às quais um escritor contemporâneo já não pode fugir. Um escritor brasileiro deveria, ao escrever, deixar claro que conhece a obra de Proust, Joyce, Borges, Rosa, Lispector... ou ao menos os latino-americanos dentre esses; isso se já não considerarmos necessário reconhecer pintores e diretores de cinema modernos, e autores contemporâneos como Pynchon e Bolaño, Antunes e Wallace... enquanto eu o dizia, ele me observava com os olhos arregalados de quem não compreende sequer a décima parte do que lhe está sendo dito, e disse timidamente que talvez, talvez (ele repetiu a palavra) ainda não fosse o momento, que naquele texto queria ser mais minimalista. O garoto certamente não levou menos de quinze segundos para encontrar a simples palavra em seu vocabulário obviamente limitado. De qualquer modo, como insistisse, dei-lhe dicas. Um homem prepotente sem razões para sê-lo, considerando-se o meio intelectual, certamente afirmaria, para causar impressão maior, ter lido aquilo que não leu - e poderia ser constrangido ao se confrontar com aqueles que realmente leram as obras que critica sem o devido conhecimento. Doei-lhe ainda outra ideia: um homem prepotente, certamente, não seria possuidor de verdadeiro gênio, e cometeria erros que poderiam ser detectados por pessoas que possuem um conhecimento verdadeiramente superior. Neste caso, certamente, tal homem se comportaria de modo inaceitável, mostrando nervosismo e intolerância para com o conhecimento através de um modo de agir ignorantemente defensivo.
     O garoto saiu de minha casa aliviado, leve, como podia ver em seu semblante, e não antes, é claro, que eu lhe chamasse mais uma vez a atenção para a importância de ler não apenas os clássicos, mas também os contemporâneos de mais destaque; "A primum opus de cada um, disse-lhe; isso bastará, desde que você saiba apreciar o estilo dos grandes." Ele tentou sem sucesso ocultar seu sorriso de agradecimento, antes de se retirar para concluir sua "obra".
     Hoje, descubro, para meu desapontamento, que o jovem publicou o tal conto, em uma versão muito mal trabalhada, que, como se não bastasse, está recebendo uma atenção injustamente elogiosa da ignorante crítica, que desconhece, graças à ingratidão do garoto em questão que sequer mencionou meu nome, que os pontos mais altos do texto são de minha autoria.
     É realmente triste para um homem de minha estatura ser tratado de tal maneira. É apenas para mostrar o desrespeito dos jovens e a baixa qualidade da crítica que crio essa nota, uma vez que, possivelmente, me seria até danoso ter o nome publicado em um trabalho de qualidade tão baixa. Não desejo que o jovem em questão me peça desculpas, pois não me as deve - o coração de seu conto fora meu, mas eu lhe dei, e ele nada me custou; peço apenas que tente evitar repetir a impensada ação, pois poderia, num outro caso, ferir o orgulho de alguém que se importe com tais assuntos.

Charlie Kaufman, Adaptation, e a posição do autor

     Assisti hoje ao filme "Adaptação", feito por Charlie Kaufman, um daqueles roteiristas que colocam em cheque a noção de que é correto se dizer "Um filme de Spike Jonze" ao início. Usualmente, um diretor bom consegue fazer de qualquer história ruim num filme interessante - Kubrick, por exemplo. Um roteirista do qual a grande maioria dos roteiros resulta num filme bom, independente do diretor que os filme, é uma criatura ainda mais rara. Mas chega de elogios;
     O filme em questão é bem amplo, no sentido de poder ser encarado de diversas formas, permitir diversas interpretações diferentes e poder ser encarado como uma manifestação da opinião do autor a respeito de diversos temas, mas há um tema específico sobre o qual eu queria falar: o questionamento da ideia de que a intenção do autor é irrelevante à compreensão do texto.
     A ideia, em si, já começa trabalhosa: afinal de contas, antes de começar a analisá-la, já é preciso tê-la resolvido. A história do filme, in a nutshell, fala de Charlie Kaufman escrevendo o roteiro do próprio filme que estamos assistindo. Em diversas partes do filme, o Kaufman personagem nos diz certas coisas que o Kaufman escritor desejava ou não para o mesmo filme. Chegamos aí a um ponto crítico; se isso for realmente similar às situações pelas quais Kaufman, o escritor, passou,  vamos enxergá-lo de uma maneira completamente diferente do que enxergaríamos caso contrário, e isso influenciará a nossa análise do personagem. Claro, é muito bonitinho tomar uma decisão apressada de "a intenção/opinião do autor" não importa; mas se esse é um filme a respeito do autor, como ignorar quais suas intenções? Além disso, estaria Kaufman consciente dessa provocação ao modo de pensar a relação autor-personagem? Em que isso influencia? Outra coisa, talvez mais importante: o roteiro escrito pelos Kaufmans seria realmente idêntico? Se sim, o fato de que a situação no qual cada um foi escrito, considerando que vemos apenas a situação de um Kaufman (na verdade, infinitos), nos faz pensar de modo diferente; se o autor tivesse escrito o roteiro de outro modo, se a história do autor nos mostrada fosse outra, nossa compreensão do filme seria completamente diferente.
     Claro, como sempre, é bom começarmos do início: minha opinião de que é impossível saber as verdadeiras intenções do autor, e ela deve, apesar de todos os detalhes, ser ignorada; há outros modos de pensar a situação. Creio que o mais produtivo seja considerar o "autor ideal" que geralmente é considerado nas análises:  o homem completamente ciente daquilo que escreve (lembrando que mesmo essa tradicional escolha define completamente os rumos de uma análise, mas como fazer outra?). Daí, somos obrigados a imaginar que Kaufman está ciente do "problema" que nos traz. A partir disso, podemos fazer uma suposição construtiva: talvez, a ideia de Kaufman seja justamente que imaginássemos a influência de possíveis posições do autor em relação a criação do texto. Ao transformar-se em personagem, ele se torna ficção, e nos obriga a refletir sobre isso. É como se, ao fim da Odisseia, descobríssemos que Minerva foi a narradora da história; cada afirmação sobre gregos e troianos teria que ser revista; a própria posição de Minerva e o que fala sobre cada outro deus poderia ser questionado; ela passaria a ser uma autora inserida no mundo da própria narrativa, e esse nosso "conhecimento" sobre o autor mudaria tudo.
     Num filme, claro, temos um elemento estranho, uma espécie de pseudo-narrativa imagética que não tenho background suficiente para nomear em termos técnicos; o máximo de narrativa em primeira pessoa são alguns momentos em que ouvimos os pensamentos do personagem Kaufman; o restante é como se fosse uma narrativa em terceira pessoa; o ponto de vista do autor muitas vezes nos passa despercebido em filmes uma vez que não ouvimos sua voz, mas apenas enxergamos fatos; em Adaptação não; o ponto de vista do autor se mostra como chave para compreender o filme - é até preocupante nos metermos por esse buraco à mente do autor, talvez maior que aquele que leva à mente de Malkovich; podemos começar a nos perguntar: teria, então, cada movimento de câmera, cada perspectiva, um significado? O ponto de vista do autor seria representado pela perspectiva das câmeras, ou a visão do diretor tentaria trazer um novo significado ao texto? Se sim, de que modo? Acho que já ficou claro que esse texto é menos sobre responder questões que sobre propô-las, assim como o filme; nem todas as respostas afinal, são compreensíveis, nem todas podem ser alcançadas; o mesmo vale para as perguntas para as quais muitas vezes temos respostas - numa inversão dolorosa de papéis.
     Vou concluir então, com o que me parece possível dizer: a posição do autor é sim importante, mas raramente pode ser conhecida. Portanto, em geral não faz sentido preocupar-se com ela. Em alguns casos, especialmente quando o texto, ou, no caso, filme, nos pede, pode ser interessante imaginar as implicações de uma possível intenção. Em outros, uma tentativa de imaginar a intenção do autor não passará de mais um trabalho de ficção, que, ainda assim, acrescentará significados ao outro. Não tento fazer uma suposição a respeito do filme aqui porque se meus posts começarem a ter páginas páginas e páginas, acho que muitas pessoas perderiam o interesse. Mas deixo aí as perguntas pra quem se interessar em pensar a respeito.

(este texto pode ser alterado sem prévio aviso)

domingo, 22 de abril de 2012

la luna

    Creio que foi Jorge Luis Borges quem escreveu alguns dos ensaios mais interessantes e prazerosos do século passado justamente porque seus ensaios não se resumiam a tentativas acadêmicas, mas também traziam um quê de literatura - assim como boa parte de sua literatura trazia um quê de ensaio. Em Borges, a criação permeia a crítica, e creio que muitos ensaios só tiveram a ganhar - e muitos contos também, como o famoso Pierre Menard. Digo isso porque esse texto, que não é literatura ou sequer ensaio, pende um pouco para cada extremo, pois vou falar um pouco de literatura e vou "imaginar" possibilidades.
     Acho que não consigo ser mais claro que começando por mencionar um amigo meu, Yambo, que me fez pensar nesse assunto. Ele escreveu um ensaio até bem complicado no qual fala a respeito de como Borges, em seu conto "O Aleph", mencionava o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade, e seu "A máquina do mundo". De acordo com ele, não só o Aleph podia ser interpretado como um repensar da "máquina" mas além disso, o nome do personagem que a encontrava era Carlos. a coincidência era realmente tamanha que me fez rir. Pedi desculpas e disse a ele que, primeiro, não tinha muita certeza a respeito do timing; se o conto teria sido escrito depois ou antes do poema. Segundo, o próprio poema de Drummond - o que ele não sabia - era inspirado na divina comédia. Era provável que Borges não estivesse citando Drummond, mas sim, que ambos estivessem citando Dante. Ele insistiu, falando a respeito do nome, e eu mencionei, como já havia lido em algum lugar, que o nome do personagem era Carlos Daneri - seu último nome, portanto, era a soma da primeira sílaba de Dante à última de Alighieri. Isso diminuiu um pouco sua vontade, e ele passou a afirmar que talvez Borges tenha tentado citar aos dois. Não quis discutir por achar que não chegaria a lugar nenhum, e quase fingi concordar; ele acabaou se cansando pela falta de réplica. (nota colocada depois da compleção do texto: mostrei esse texto ao Yambo e ele não se importou por eu publicá-lo - e ainda agradeceu pela minha honestidade!). 
     O comentário dele ficou na minha cabeça, e depois de certo tempo, acabou rendendo certa discussão interna. Me lembrei do verso "Loudly careless drunkly spoke:/'Yo-ho-ho and a bottle of rum!'" (quem se lembrar do nome do autor por favor me ajude, o verso ficou talvez por ser sonoro; talvez, por eu ter me lembrado da citação, me lembrei do resto). Eu consigo imaginar claramente um leitor brasileiro ou português achar estar vendo num autor inglês uma citação de Pessoa; claro, porém, que a maioria dos leitores ingleses não teria essa visão, pois imaginaria imediatamente o texto original de Stevenson, que Pessoa cita.
     Foi a partir desse ponto que minha imaginação - que até agora era somente reflexão sobre textos pré-existentes - realmente se impulsionou, e comecei a navegar no significado dos textos. Imagine, por exemplo, um poeta que crie o seguinte verso em espanhol/inglês (por favor, perdoem minha incapacidade de criar versos bons): "una rosa amarilla; a yellow rose/ art two diff'rent flowers, tho they art none"; esse poeta poderia criar tal verso inspirado pela obra de Borges - porém, os americanos e ingleses não pensariam na fonte original da citação? Um italiano, ao ler o Aleph poderia lhe imaginar alguns significados diferentes que um brasileiro que não conheça a comédia. Seria possível, como Yambo, crer que a recusa de Borges a comentar sobre o Aleph que acabara de ver seria uma re-imaginação e re-significação da recusa do mineiro de Drummond a penetrar na máquina do mundo; se poderia imaginar que Borges afirma que mesmo a recusa é um ato social. Se desconsiderarmos totalmente a possibilidade lógica, as datas, e a intenção do autor, quem poderá negar essas suposições, que encontram tanto respaldo no conteúdo do texto quanto algumas respeitadas? Borges certamente se divertiria com as inúmeras interpretações resultantes. No caso de Pessoa e Stevenson a confusão é ainda mais fácil: são dois autores muito lidos entre os falantes de sua língua, e não tão lidos pelos falantes da outra; Pessoa, que cita, é bem mais talentoso; e se Stevenson for esquecido e ele não? É preciso admitir que um poeta brasileiro que citasse a frase do "rum" muito provavelmente leu Pessoa, mas teria lido Stevenson? Se sim, que possível influência isso poderia ter para o significado de seu texto?
      É com certeza um tema complicado, mas no fim, eu creio que as intenções do autor realmente não devam importar, e talvez nem mesmo as datas; um texto é influenciado por seus antecessores e sucessores, e cada texto diz ele mesmo o que cita, e o que não; autores mentem e morrem; textos sempre falam a verdade - ainda que não aquela que seus escritores queriam que eles dissessem.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Como julgar Haruki Murakami

NOTA: Por favor, insira "guardadas as devidas proporções" onde achar necessário. Não se esqueça disso durante a leitura.

minhas aquisições recentes mais importantes para o texto que está lendo são o "Infinite Jest", de David Foster Wallace, e o "Do que eu falo quando eu falo de corrida", de Haruki Murakami, em que, espero que tenha ficado claro, inspirei o título do post.

estou trabalhando no momento com o Livro Infinite Jest, o que vem me causando um certo número de desconfortos, ainda que estes nem de longe superem o Prazer da Leitura do texto de Wallace, descrito por alguns como o "escritor mais Divertido de sua geração". ainda que nos traga trechos profundamente depressivos, o Autor também nos trás momentos leves, bonitos; o problema maior é que o Livro é um complicado calhamaço de 1079 páginas, em um inglês que, dependendo do trecho  chega a ser muito técnico, específico, "incorreto" ou cheio de gírias, e fala sobre um futuro incerto num cenário político crítico, envolvendo áreas tão distantes quanto física, matemática, filosofia, letras, cinema, psicologia, política, economia, entre outras - sendo que me falta conhecimento de várias delas. resumidamente, é um trabalho e tanto.

outra dificuldade é que a Obra, lançada em 1996, ainda não foi traduzida, e portanto, mal foi lida no Brasil, ainda que seja altamente loureada pelos críticos de língua inglesa, e seja realmente fantástica, do meu ponto de vista chão. em outras palavras: ainda que eu faça letras, a grande maioria de meus professores não leu o Livro, ou sequer ouviu falar de seu Autor. na verdade, estou quase certo de que apenas uma de minhas professoras conhece o nome David Foster Wallace. talvez duas. não quero me gabar, te deixando com a impressão de que sou lá um grande conhecedor da literatura contemporânea; não sou. um amigo me indicou o livro, eu gostei, e é só. quero, pelo contrário, manifestar algumas dificuldades.

como estudante, é difícil se conseguir algum tipo de publicação decente sem um orientador - o que, no caso do Infinite Jest, provavelmente me obrigará a ter como orientador alguém que nunca leu a Obra. não sei se algum dos professores capazes de ler em inglês teria interesse, ou fôlego.

vou mais além: vou imaginar que em algum lugar no Brasil um estudante se interesse pela obra no mínimo singular de Haruki Murakami. além de este ser um nome menos conceituado (justamente? difícil saber.), é definitivamente, como Wallace, contemporâneo demais para que a maioria dos professores aceite tomar uma decisão a respeito. para não mencionar que Murakami é, e escreve em, japonês. o que leva à pergunta: como julgar Haruki Murakami?

há críticos e críticos, é claro; há Antônio Cândido e Sílvio Romero, e peço até desculpas por comparar tão grosseiramente, mas o ponto é que, como eu disse antes, "como julgar" não é exatamente uma pergunta, e se for, é tão vaga quanto suas possíveis respostas.

inúmeros fatores são levados em consideração ao se analisar o conteúdo de uma obra. uma nova obra pode até mesmo ter um valor inato que até então se desconhecia, e o que tem valor numa obra pode se mostrar insignificante na outra, para o prejuízo de nenhuma. dizer que Machado de Assis é genial é fácil, é seguro. saber quais são seus maiores estudiosos é simples. achar as obras mais confiáveis escritas sobre eles é questão de fazer algumas perguntas. a opinião sobre um Murakami e um Wallace, contudo, é mais controversa; o estudante se vê jogado num terreno inóspito, para o qual jamais foi preparado: a crítica de um autor desconhecido. os artigos a respeito são contraditórios e incertos, alguns bons, alguns ruins; críticos amam; odeiam; as cabeças se movimentam como as razões num jogo de tênis. o estudante talvez pare e pense no que conhece como "literatura conteporânea", apenas para perceber que não conhece nada; que há críticos de tudo; que há certezas. que a contemporaneidade que havia estudado é só o cânone mais próximo.

claro, há sempre "guidelines", instruções encapsuladas em pílula de enjôo de Grandes Viagens; o estudante precisa Perguntar e Buscar, e ainda assim não será simples. professores relutarão em afirmar, e afirmarão em relutância, ainda que discreta. o hábito de afirmar sem se saber não lhes é comum. se dedicarão a análises e (principalmente) re³-análises. não terão tempo.

não que seja essencialmente mau(sic). apenas não querem perder seu Tempo com aquilo que pode ser uma obra de baixa qualidade escolhida por estudantes ignorantes que não sabem nem mesmo qual a relação existente entre o deus Apolo e o Sol, ou qual o oitavo arcano da constelação de ursa maior. se incentivassem os alunos a analisarem o verdadeiro contemporâneo sabe-se lá que porcarias new-age esses catarrentos poderiam lhes infligir. não me entenda mau(sic), por favor; creio que a maioria não pensa assim, ao menos não-superficialmente. só escrevi porque faz sentido. é compreensível. é como as coisas são. é preciso ser gente grande pra falar que ninguém é alguém, ainda que possa ser Odisseu.

e peço perdão pelas generalizações cometidas.