terça-feira, 15 de maio de 2012

Benjamin, a tradução, e os gêneros


     Recentemente, devido a uma obrigação escolar que confesso não ter me desagradado, li o ensaio “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”, de Walter Benjamin. Depois da leitura, tenho que confessar que mais que a própria leitura, o que mais me chamou a atenção foi a tradução do texto.
Ignoro completamente o alemão, mas desde o início senti certo desconforto quanto ao significado que o autor atribuía a alguns termos, que foi se tornando aos poucos mais claro ao longo do ensaio. A separação da prosa nos gêneros romance, narrativa e short story, por exemplo, desconcerta de início, já que o autor fala, no início, apenas da “narrativa”, que só vamos conseguir identificar plenamente ao seguir pelo texto – na verdade, acho que nesse ensaio só é possível compreender o que Benjamin chama de narrativa através das comparações que ele faz com os outros tipos de prosa que ele mesmo menciona e classifica. É possível que para alguém da época não enxergue que Benjamin está criando classificações, caso ele estivesse na verdade apenas usando classificações já existentes na época; mas em relação ao conceito altamente relativo que temos do significado de termos como “romance” e “conto”, hoje em dia, energuemos que ele está criando uma classificação.
     Os conceitos que temos hoje em dia a respeito dos diferentes gêneros me lembram um livro introdutório à teoria da literatura de Terry Eagleton em que ele “define” a literatura como um corpo de textos cujas características vão depender da sociedade e do momento histórico em questão. Certos trabalhos que antigamente eram considerados históricos hoje em dia são considerados literatura ou tratados filosóficos. Os próprios diálogos platônicos são em diversos aspectos vistos como literatura, ou um gênero híbrido de literatura, enquanto (supõe-se) antigamente eram puros tratados filosóficos. Conceitos como romance ou conto são ainda mais frágeis, pois não existe uma divisão clara e específica. Na natureza, digamos, existem características específicas que nos permitem separar sem sombra de dúvidas o mineral do vegetal; essas características fazem parte daquele ser. Teoricamente, tudo se encaixará nessas características. O problema de classificarmos os estilos literários é justamente esse: o excesso de categorização.
     Um teórico, por necessidade, elabora uma classificação partindo dos textos existentes, sem pensar (ou mesmo sendo incapaz de pensar) nas possibilidades de desenvolvimento futuro de um gênero. Conforme a cultura de um povo se desenvolve, ou melhor, muda, muitas vezes surgem novos modos de se escrever não antes previstos – e o muitas teorias terão que ser adaptadas, ou então excluir de sua classificação algo que parece se aproximar tanto de outros elementos já incluídos. Dizer que um conto deve ter, digamos, apenas um acontecimento principal, é se colocar numa posição de análise pré-programada que pode arruinar a compreensão de um conto, e eliminar prévia e arbitrariamente toda a possibilidade de um conto que tenha mais de um acontecimento principal. Um analista que considerasse isso como uma diretriz inviolável com certeza cometeria um erro ao se deparar com um conto no qual há mais de um acontecimento principal – ele escolheria um e o elevaria acima dos outros, ainda que o contista não o tenha feito. O resultado que isso teria para a análise poderia ser bom em alguns casos e catastrófico em outros.
     Em textos como esse, de Benjamin, uma compreensão maior da concepção do autor sobre os gêneros pode ser essencial, e a vantagem é que nesse, o autor parece estabelecer uma definição. Para ele, narrativa, conto (short story) e romance são coisas diferentes, enquanto para nós, a narrativa, dependendo de suas características, poderia ser considerada conto, romance, ou ainda, novela.
A narrativa, para Benjamin, é um texto que se aproxima do registro oral, um registro de histórias contadas às lareiras pelos marinheiros ou idosos. A Treasure Island de Stevenson (autor que WB cita como exemplo) é repleta de uma escrita que emula o falar dos marinheiros e piratas, e talvez por isso possa ser chamada de narrativa, ainda que para nós seja um romance. Poe, talvez pelo modo de contar uma história (como quem conta uma história que ficou sabendo, que leu, ou que presenciou, mas normalmente não sua própria história) também é considerado um autor de narrativas, embora a grande maioria de seus textos sejam contos para nós. E é bem mergulhados no texto que vamos compreender o que Benjamin chama de narrador: os autores de narrativas, o que poderíamos chamar de contadores de história. Quem escreve um romance para ser lido em solidão é um romancista. Quem escreve uma história para ser contada aos netos ao pé do fogo é um narrador. Eis aí a diferença.
     É depois que percebemos isso que temos que reconsiderar tudo aquilo que WB havia dito até então sobre o narrador, pois ele não se refere exatamente ao escritor, ao romancista, ou ao contista, mas ao autor do gênero específico de Nikolai Leskov, ao contador de histórias. Para ele, Clarice Lispector seria uma contista, mas não uma narradora, enquanto Kerouac seria o oposto – quer consideremos um pequeno livro como Tristessa ou um On the road, o tamanho não importa aqui, o que define o gênero são algumas características principais como o jeito de contar a história, e o tipo de história. Clarice seria psicológica demais para se contar como se conta os feitos do Cavaleiro Inexistente, por exemplo - e acho que ninguém a chamaria de péssima contista.
     E somente aqui, depois de tantas delongas, eu volto ao assunto do tradutor. Ele precisa ser consciente dessas diferenças de gênero; e caso haja uma real impossibilidade de tradução, que trabalhe com notas ou algo assim, evitando, por exemplo, a ambiguidade que uma palavra como “narrador”, pode acabar adquirindo num texto como esse de WB. Já é difícil o suficiente sabermos se o autor está trabalhando com uma divisão de gêneros já existente em sua época para a crítica de certos autores ou estabelecendo uma classificação própria para isso. Se não pudermos confiar que a utilização dos termos por parte do autor é realmente aquela à qual estamos acostumados, fica ainda mais difícil - e uma das obrigações do tradutor é aproximar o vocabulário do texto do nosso, e especialmente em um texto teórico, é ideal evitar ambiguidades e duvidas lexicais.
     Claro, aí ainda podemos entrar no problema da idade da tradução como influência na compreensão do texto traduzido, na compreensão do significado do texto considerando a diferença nos conceitos de gênero, nas variações da concepção atual dos termos... mas isso fica para outros posts – ou não.

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