Recentemente, devido a
uma obrigação escolar que confesso não ter me desagradado, li o
ensaio “O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai
Leskov”, de Walter Benjamin. Depois da leitura, tenho que confessar
que mais que a própria leitura, o que mais me chamou a atenção foi
a tradução do texto.
Ignoro completamente o
alemão, mas desde o início senti certo desconforto quanto ao
significado que o autor atribuía a alguns termos, que foi se
tornando aos poucos mais claro ao longo do ensaio. A separação da
prosa nos gêneros romance, narrativa e short story, por
exemplo, desconcerta de início, já que o autor fala, no início,
apenas da “narrativa”, que só vamos conseguir identificar
plenamente ao seguir pelo texto – na verdade, acho que nesse ensaio
só é possível compreender o que Benjamin chama de narrativa
através das comparações que ele faz com os outros tipos de prosa
que ele mesmo menciona e classifica. É possível que para alguém da
época não enxergue que Benjamin está criando classificações,
caso ele estivesse na verdade apenas usando classificações já
existentes na época; mas em relação ao conceito altamente relativo
que temos do significado de termos como “romance” e “conto”,
hoje em dia, energuemos que ele está criando uma classificação.
Os
conceitos que temos hoje em dia a respeito dos diferentes gêneros me
lembram um livro introdutório à teoria da literatura de Terry
Eagleton em que ele “define” a literatura como um corpo de textos
cujas características vão depender da sociedade e do momento
histórico em questão. Certos trabalhos que antigamente eram
considerados históricos hoje em dia são considerados literatura ou
tratados filosóficos. Os próprios diálogos platônicos são em
diversos aspectos vistos como literatura, ou um gênero híbrido de
literatura, enquanto (supõe-se) antigamente eram puros tratados
filosóficos. Conceitos como romance ou conto são ainda mais
frágeis, pois não existe uma divisão clara e específica. Na
natureza, digamos, existem características específicas que nos
permitem separar sem sombra de dúvidas o mineral do vegetal; essas
características fazem parte daquele ser. Teoricamente, tudo se
encaixará nessas características. O problema de classificarmos os
estilos literários é justamente esse: o excesso de categorização.
Um
teórico, por necessidade, elabora uma classificação partindo dos
textos existentes, sem pensar (ou mesmo sendo incapaz de pensar) nas
possibilidades de desenvolvimento futuro de um gênero. Conforme a
cultura de um povo se desenvolve, ou melhor, muda, muitas vezes
surgem novos modos de se escrever não antes previstos – e o muitas
teorias terão que ser adaptadas, ou então excluir de sua
classificação algo que parece se aproximar tanto de outros
elementos já incluídos. Dizer que um conto deve ter, digamos,
apenas um acontecimento principal, é se colocar numa posição de
análise pré-programada que pode arruinar a compreensão de um
conto, e eliminar prévia e arbitrariamente toda a possibilidade de
um conto que tenha mais de um acontecimento principal. Um analista
que considerasse isso como uma diretriz inviolável com certeza
cometeria um erro ao se deparar com um conto no qual há mais de um
acontecimento principal – ele escolheria um e o elevaria acima dos
outros, ainda que o contista não o tenha feito. O resultado que isso
teria para a análise poderia ser bom em alguns casos e catastrófico
em outros.
Em
textos como esse, de Benjamin, uma compreensão maior da concepção
do autor sobre os gêneros pode ser essencial, e a vantagem é que
nesse, o autor parece estabelecer uma definição. Para ele,
narrativa, conto (short story) e romance são coisas diferentes,
enquanto para nós, a narrativa, dependendo de suas características,
poderia ser considerada conto, romance, ou ainda, novela.
A
narrativa, para Benjamin, é um texto que se aproxima do registro
oral, um registro de histórias contadas às lareiras pelos
marinheiros ou idosos. A Treasure Island de
Stevenson (autor que WB cita como exemplo) é repleta de uma escrita
que emula o falar dos marinheiros e piratas, e talvez por isso possa
ser chamada de narrativa, ainda que para nós seja um romance. Poe,
talvez pelo modo de contar uma história (como quem conta uma
história que ficou sabendo, que leu, ou que presenciou, mas
normalmente não sua própria história) também é considerado um
autor de narrativas, embora a grande maioria de seus textos sejam
contos para nós. E é bem mergulhados no texto que vamos compreender
o que Benjamin chama de narrador: os autores de narrativas,
o que poderíamos chamar de
contadores de história. Quem escreve um romance para ser lido em
solidão é um romancista. Quem escreve uma história para ser
contada aos netos ao pé do fogo é um narrador. Eis aí a diferença.
É
depois que percebemos isso que temos que reconsiderar tudo aquilo que
WB havia dito até então sobre o narrador, pois ele não se refere
exatamente ao escritor, ao romancista, ou ao contista, mas ao autor
do gênero específico de Nikolai Leskov, ao contador de histórias.
Para ele, Clarice Lispector seria uma contista, mas não uma
narradora, enquanto Kerouac seria o oposto – quer consideremos um
pequeno livro como Tristessa ou um On the road, o tamanho não
importa aqui, o que define o gênero são algumas características
principais como o jeito de contar a história, e o tipo de história.
Clarice seria psicológica demais para se contar como se conta os
feitos do Cavaleiro Inexistente, por exemplo - e acho que ninguém a chamaria de péssima contista.
E
somente aqui, depois de tantas delongas, eu volto ao assunto do
tradutor. Ele precisa ser consciente dessas diferenças de gênero; e
caso haja uma real impossibilidade de tradução, que trabalhe com
notas ou algo assim, evitando, por exemplo, a ambiguidade que uma
palavra como “narrador”, pode acabar adquirindo num texto como
esse de WB. Já é difícil o suficiente sabermos se o autor está
trabalhando com uma divisão de gêneros já existente em sua época
para a crítica de certos autores ou estabelecendo uma classificação
própria para isso. Se não pudermos confiar que a utilização dos
termos por parte do autor é realmente aquela à qual estamos
acostumados, fica ainda mais difícil - e uma das obrigações do tradutor é aproximar o vocabulário do texto do nosso, e especialmente em um texto teórico, é ideal evitar ambiguidades e duvidas lexicais.
Claro,
aí ainda podemos entrar no problema da idade da tradução como
influência na compreensão do texto traduzido, na compreensão do
significado do texto considerando a diferença nos conceitos de
gênero, nas variações da concepção atual dos termos... mas isso
fica para outros posts – ou não.
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