Faz poucos dias eu estava procurando na
internet algumas coisa sobre o Infinite Jest, e encontrei um site
chamado "infinite summer", e li um trecho que, apesar do
título "How to read Infinite Jest"*, é muito
interessante. Mas isso não é o mais interessante.
A partir desse site fui direcionado a uma
"Wikipedia" dedicada apenas ao Infinite Jest, com uma
quantidade grande de conteúdo°. Lá também havia links para outros
"wikis", especialmente de livros do Pynchon¹. A partir daí
comecei a pensar sobre a relação da literatura - especialmente a
contemporânea - com a internet colaborativa.
Essas wikipedias, como a original, que tenta
abranger todo tipo de conteúdo, são páginas que por serem
dedicadas a um tema mais específico, se aprofundam em detalhes e são
fáceis de serem procuradas pelos interessados. A wiki do Infinite
Jest, por exemplo, traz imagens dos objetos "incomuns"
contidos no livro, fotos das obras de arte ou imagens derivadas da
matemática mencionadas, além do significado dos termos mais
complexos. Wikis, como todos devem saber, são páginas
colaborativas: alguém que saiba de algo que os outros não sabem
pode acrescentar seu conhecimento ao site, a pessoa em si não vai
ganhar nada com isso ou vai ter qualquer direito sobre sua
colaboração; vai, sim, apenas aumentar a base de dados para todos
os interessados em informações a respeito do livro - ou de seja lá
qual for o tema da wiki em questão. Claro, esse também é o defeito
desse tipo de site. Já que são pessoas comuns que colocam seu
conhecimento ali, há uma chance maior de que alguma informação
esteja errada (ou seja: se procura um vocábulo, vá a um
dicionário). É possível afirmar em defesa das wikis que isso
acontece raramente, contudo.
O que me fez pensar a respeito disso, porém,
foi a relação que isso guarda com o romance contemporâneo, e as
causas que levam wikis inteiros a serem feitos sobre apenas um
romance, enquanto já existem tantos romances e obras literárias por
aí. Porquê não se faz de cara um wiki sobre literatura, que
contenha todo tipo de obra?² E mesmo que se decida não fazer isso,
para poder colocar dados mais aprofundados sobre cada obra, porquê
não fazê-lo com obras anteriores? Claro, perguntas que não se pode
responder com afirmações, mas com hipóteses.
A primeira hipótese que pensei é contestável:
alguns romances contemporâneos³ são extremamente complexos. Vou
exemplificar com alguns trechos do Wiki do Infinite Jest:
Pág. 221
sienna-glazed
glazed with an earth-based pigment
polyresin
a resin compound used to make figurines, among
other things
staccato
in music, notes that are sounded in a detached
and distinct manner
cataract
In the non-ophthalmic sense, this word means
"waterfall."
Pág. 222
NOTRE RAI PAYS
Notre pays is French for "our
country." I don't know what "RAI" is supposed to mean;
apparently, in French, it's a type of Algerian music.
.473-liter
a pint
Big Red Soda Water
a real
brand similar to cream soda, only red. This was originally only
sold in Central/South Texas and Kentucky and is still popular in that
region, though available elsewhere.
Chore Boy
a brand of scrubbing
pads. The copper version of these pads can be used as a filter
for smoking crack.
two-k. square
0.77 square miles
selvage
the finished edge of a piece of fabric, so done
to prevent fraying
delimits
establishes the boundaries of
Esses trechos, como se pode notar, são só de
vocabulário. Há alguns que são referências a quadros4,
livros5 ou
filmes6. Ainda assim, este
trecho, "mais simples", usa uma gíria para uma espécie de
canudo para se fumar crack, uma marca pouco conhecida de
refrigerante, uma frase em francês - escrita errado7.
Pelo que descobri o correto deveria ser "Notre vrai pays" e
um termo de música, "staccato". E isso são apenas duas
páginas quaisquer, eu não procurei páginas que tivessem muitas
coisas, e sim coloquei as duas primeiras que apareceram. Talvez seja
difícil cobrir todo o conteúdo de um livro como esse, daí ele ter
seu próprio wiki - isso se deveria à quantidade de conteúdo. Essa
explicação, contudo, não se sustenta sozinha, já que um autor
mais antigo como Borges possui textos que também tem uma quantidade
muito grande de conteúdo. Um livro como "El Aleph" ou
"Ficciones" poderia facilmente ter uma wiki própria. É
necessária uma outra hipótese.
O livro de David Foster Wallace foi lançado em
1996 - bem no início da "era da internet" - o que de
imediato contribui para seu sucesso. O autor deu entrevistas em
programas de televisão que ainda estão no ar, e ainda são
apresentados por pessoas mais velhas que ele mesmo. O que quero dizer
é: existem muitas obras "antigas"; o número de pessoas
profundamente interessadas simultaneamente numa obra antiga que além
disso ainda teriam a disposição de trabalhar numa wiki é menor que
o número de interessados numa obra que acabou de sair do forno,
ainda que seja só por ela ser um best-seller ou coisa do tipo. Essa
explicação, somada à anterior, pode ser a grande causa do fato de
que Wallace e Pynchon tem tantos wikis, enquanto autores mais antigos
de livros "mise en abyme" não.
Claro, isso são só imaginações minhas. É
sempre difícil dizer a causa de acontecimentos aparentemente tão
aleatórios. Mas que são coisas curiosas, isso são.
* http://infinitesummer.org/archives/215;
°
http://infinitejest.wallacewiki.com/david-foster-wallace/index.php?title=Main_Page
¹ Por exemplo:
http://gravitys-rainbow.pynchonwiki.com/wiki/index.php?title=Main_Page
² Talvez até exista algum, mas os que consegui encontrar na
internet eram realmente terríveis, nem se comparando em qualidade ao
do Infinite Jest ou do Gravity's Rainbow.
³ O tipo de romance que talvez ganhe um "ismo" próprio,
quero dizer.
4 Exemplos citados no livro
são os Papas de Bacon e o tríptico "The Garden of
Earthly Delights" de Bosch.
5 O próprio título, "Infinite
Jest" é uma citação de Shakespeare (Hamlet).
6 No livro um dos personagens diz
"me droogies", o que parece ser uma referência ao
"Clockwork Orange".
7 É curioso o número de erros que há no
Infinite Jest. Dizem que praticamente nenhuma das frases em francês
ou alemão que há no livro estão escritas corretamente. Há vezes
em que Wallace menciona uma estátua que, na verdade, estaria num
lugar diferente do que ele menciona. Ao mesmo tempo que não é
exagero supor alguns erros e decisões questionáveis numa obra tão
cheia de informação, é estranho que DFW não verificasse a escrita
do francês, e improvável que cometesse erros tão simplórios como
colocar "rai" ao invés de "vrai" - o que pode
nos levar a supor que alguns erros devem ser intencionais - embora
talvez seja esperar demais dizer que todos o seriam.
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