terça-feira, 8 de maio de 2012

Wikis e a literatura contemporânea

    Faz poucos dias eu estava procurando na internet algumas coisa sobre o Infinite Jest, e encontrei um site chamado "infinite summer", e li um trecho que, apesar do título "How to read Infinite Jest"*, é muito interessante. Mas isso não é o mais interessante.
    A partir desse site fui direcionado a uma "Wikipedia" dedicada apenas ao Infinite Jest, com uma quantidade grande de conteúdo°. Lá também havia links para outros "wikis", especialmente de livros do Pynchon¹. A partir daí comecei a pensar sobre a relação da literatura - especialmente a contemporânea - com a internet colaborativa.
    Essas wikipedias, como a original, que tenta abranger todo tipo de conteúdo, são páginas que por serem dedicadas a um tema mais específico, se aprofundam em detalhes e são fáceis de serem procuradas pelos interessados. A wiki do Infinite Jest, por exemplo, traz imagens dos objetos "incomuns" contidos no livro, fotos das obras de arte ou imagens derivadas da matemática mencionadas, além do significado dos termos mais complexos. Wikis, como todos devem saber, são páginas colaborativas: alguém que saiba de algo que os outros não sabem pode acrescentar seu conhecimento ao site, a pessoa em si não vai ganhar nada com isso ou vai ter qualquer direito sobre sua colaboração; vai, sim, apenas aumentar a base de dados para todos os interessados em informações a respeito do livro - ou de seja lá qual for o tema da wiki em questão. Claro, esse também é o defeito desse tipo de site. Já que são pessoas comuns que colocam seu conhecimento ali, há uma chance maior de que alguma informação esteja errada (ou seja: se procura um vocábulo, vá a um dicionário). É possível afirmar em defesa das wikis que isso acontece raramente, contudo.
    O que me fez pensar a respeito disso, porém, foi a relação que isso guarda com o romance contemporâneo, e as causas que levam wikis inteiros a serem feitos sobre apenas um romance, enquanto já existem tantos romances e obras literárias por aí. Porquê não se faz de cara um wiki sobre literatura, que contenha todo tipo de obra?² E mesmo que se decida não fazer isso, para poder colocar dados mais aprofundados sobre cada obra, porquê não fazê-lo com obras anteriores? Claro, perguntas que não se pode responder com afirmações, mas com hipóteses.
    A primeira hipótese que pensei é contestável: alguns romances contemporâneos³ são extremamente complexos. Vou exemplificar com alguns trechos do Wiki do Infinite Jest:



Pág. 221



sienna-glazed
glazed with an earth-based pigment
polyresin
a resin compound used to make figurines, among other things
staccato
in music, notes that are sounded in a detached and distinct manner
cataract
In the non-ophthalmic sense, this word means "waterfall."

Pág. 222

NOTRE RAI PAYS
Notre pays is French for "our country." I don't know what "RAI" is supposed to mean; apparently, in French, it's a type of Algerian music.
.473-liter
a pint
Big Red Soda Water
a real brand similar to cream soda, only red. This was originally only sold in Central/South Texas and Kentucky and is still popular in that region, though available elsewhere.
Chore Boy
a brand of scrubbing pads. The copper version of these pads can be used as a filter for smoking crack.
two-k. square
0.77 square miles
selvage
the finished edge of a piece of fabric, so done to prevent fraying
delimits
establishes the boundaries of


    Esses trechos, como se pode notar, são só de vocabulário. Há alguns que são referências a quadros4, livros5 ou filmes6. Ainda assim, este trecho, "mais simples", usa uma gíria para uma espécie de canudo para se fumar crack, uma marca pouco conhecida de refrigerante, uma frase em francês - escrita errado7. Pelo que descobri o correto deveria ser "Notre vrai pays" e um termo de música, "staccato". E isso são apenas duas páginas quaisquer, eu não procurei páginas que tivessem muitas coisas, e sim coloquei as duas primeiras que apareceram. Talvez seja difícil cobrir todo o conteúdo de um livro como esse, daí ele ter seu próprio wiki - isso se deveria à quantidade de conteúdo. Essa explicação, contudo, não se sustenta sozinha, já que um autor mais antigo como Borges possui textos que também tem uma quantidade muito grande de conteúdo. Um livro como "El Aleph" ou "Ficciones" poderia facilmente ter uma wiki própria. É necessária uma outra hipótese.
    O livro de David Foster Wallace foi lançado em 1996 - bem no início da "era da internet" - o que de imediato contribui para seu sucesso. O autor deu entrevistas em programas de televisão que ainda estão no ar, e ainda são apresentados por pessoas mais velhas que ele mesmo. O que quero dizer é: existem muitas obras "antigas"; o número de pessoas profundamente interessadas simultaneamente numa obra antiga que além disso ainda teriam a disposição de trabalhar numa wiki é menor que o número de interessados numa obra que acabou de sair do forno, ainda que seja só por ela ser um best-seller ou coisa do tipo. Essa explicação, somada à anterior, pode ser a grande causa do fato de que Wallace e Pynchon tem tantos wikis, enquanto autores mais antigos de livros "mise en abyme" não.
    Claro, isso são só imaginações minhas. É sempre difícil dizer a causa de acontecimentos aparentemente tão aleatórios. Mas que são coisas curiosas, isso são.
   






* http://infinitesummer.org/archives/215;
° http://infinitejest.wallacewiki.com/david-foster-wallace/index.php?title=Main_Page
¹ Por exemplo: http://gravitys-rainbow.pynchonwiki.com/wiki/index.php?title=Main_Page
² Talvez até exista algum, mas os que consegui encontrar na internet eram realmente terríveis, nem se comparando em qualidade ao do Infinite Jest ou do Gravity's Rainbow.
³ O tipo de romance que talvez ganhe um "ismo" próprio, quero dizer.
Exemplos citados no livro são os Papas de Bacon e o tríptico "The Garden of Earthly Delights" de Bosch.
5 O próprio título, "Infinite Jest" é uma citação de Shakespeare (Hamlet).
6 No livro um dos personagens diz "me droogies", o que parece ser uma referência ao "Clockwork Orange".
7 É curioso o número de erros que há no Infinite Jest. Dizem que praticamente nenhuma das frases em francês ou alemão que há no livro estão escritas corretamente. Há vezes em que Wallace menciona uma estátua que, na verdade, estaria num lugar diferente do que ele menciona. Ao mesmo tempo que não é exagero supor alguns erros e decisões questionáveis numa obra tão cheia de informação, é estranho que DFW não verificasse a escrita do francês, e improvável que cometesse erros tão simplórios como colocar "rai" ao invés de "vrai" - o que pode nos levar a supor que alguns erros devem ser intencionais - embora talvez seja esperar demais dizer que todos o seriam.

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