Italo Calvino, talvez por ser contemporâneo demais, como um amigo me sugeriu, é um autor menos citado do que deveria. Claro, talvez estejamos apenas dando menos atenção à prosa italiana que deveríamos. É difícil dizer. Ao longo do texto, a resposta que darei a isso é menos uma resposta que considero oficialmente válida que um pretexto para falar de um assunto.
Apesar de sua contemporaneidade, Calvino não deixou de ser visto, em geral, como o grande autor que é - tanto que foi convidado para fazer a Charles Eliot Norton Poetry Lectures, na universidade de Harvard em 1985 - honraria rara. O que mais se distingue no trabalho de Calvino é, talvez, uma espécie de subversão das "regras" da escrita. Um livro contém inúmeras descrições de diversas cidades imaginárias e metafóricas, outro conta a história de pessoas que se comunicam completamente por meio de cartas de tarot, e outro, ainda, conta a história de seu próprio leitor. Pra onde vão as análises de narrativa e personagem mais restritivas quando chegamos a isso? Provavelmente para lugar nenhum. Calvino, além disso, acreditava que a literatura deveria proporcionar prazer ao leitor, ainda que leigo - que o verdadeiro prazer da leitura não deveria ser hermeticamente fechado, mantido fora do alcance do leitor não iniciado nos "mistérios" da alta literatura. O que eu proponho é que talvez seja justamente esse o problema que fez com que Calvino fosse menos citado que deveria.
Nesse ponto, que fiquem duas coisas claras: primeira, que não digo que Calvino é pouco citado, mas sim, que o é bem menos que mereceria. Segunda, quando eu digo que a acessibilidade de Calvino pode ser o "problema", não me refiro ao fato de que sua aparente simplicidade pode por vezes desencorajar uma leitura mais profunda; não falo aqui que essa facilidade seja um problema de Calvino, e sim do ego dos leitores.
Ainda me explico mais, mostrando o quanto notas podem ser úteis pra deixar um texto mais limpo: não estou tentando dizer que Calvino é simples, mas sim, que há em muitos de seus textos uma camada simples. Essa camada permite que alguém que não conheça muita literatura (como eu) leia seus livros e se divirta; mas há outras, cujo acesso se complica, uma vez que a senha passa a ser composta de mais e mais palavras.
Às vezes tenho a impressão de que autores não podem se dar ao luxo de parecerem simples se não forem, ao mesmo tempo ou reconhecidamente, complexos; longos e complicados romances facilmente tomam a atenção de leitores, enquanto contos e textos curtos e que parecem ser simples não chamam tanta atenção ainda que sejam agradáveis e sua complexidade visível aos bons leitores. É como se Calvino retirasse um troféu de vidro da prateleira mais alta e desse às crianças. O problema é que muitas vezes as crianças não são crianças. E o troféu não é de vidro.
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